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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

FIGURAS SONORAS NA LITERATURA

Figuras sonoras

Por que poetas, romancistas e compositores sempre empregaram as figuras de som? Qual é o seu efeito de sentido?

por Luiz Roberto Wagner e Djenane Sichieri Wagner Cunha*

Quem nunca ouviu este verso de Caetano Veloso, presente na composição musical Chuva, suor e cerveja: Acho que a chuva ajuda a gente se ver, em que a reiteração das fricativas e das palatais sugere o barulho da chuva.
Há determinadas figuras de estilo que combinam os elementos sonoros de uma língua em textos, discursos, poemas, etc., para que soem agradavelmente.
Chamam-se figuras de som aquelas que se ligam aos aspectos fonéticofonológicos das palavras. São elas: aliteração, assonância, paronomásia e onomatopeia. Neste artigo, vamos nos ater, especificamente, às duas primeiras.
Tais figuras foram muito exploradas pelos poetas simbolistas lusobrasileiros, como Camilo Pessanha, Eugênio de Castro, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. Além do subjetivismo, do misticismo e da musicalidade, havia uma certa preocupação com a sugestão, com o emprego de sensações (sinestesias) e com a repetição de consoantes e vogais idênticas ou parecidas.
Tendo em vista que a música é dos recursos que mais sugerem e melhor evocam o vago, o indefinível, o simbolista buscava explorar o conteúdo musical das palavras. Visando à aproximação da poesia com a música, os poetas lançaram mão de vários recursos, como a aliteração e a assonância.

ALITERAÇÃO
É a repetição proposital e ordenada de sons consonantais idênticos ou semelhantes. O efeito serve para reforçar a imagem que se quer transmitir.

"Esperando, parada, pregada na pedra do porto." (Dalla, Pallotino, Chico Buarque)

A reiteração e a sonoridade da consoante oclusiva bilabial /p/, principalmente no início das palavras, sugerem a fixação, a imutabilidade da personagem.
"Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando."

(Oswald de Andrade)

Neste exemplo do poeta modernista, a repetição do som fricativo / ch/ enriquece a ideia de chuva.

Nos versos abaixo, do poeta Carlos Drummond de Andrade, percebemos a repetição de determinados elementos fônicos, como a sonoridade das consoantes /b/, /p/ e /t/, recurso da aliteração; a reiteração da nasalidade /õ/, exemplificando a assonância; e a paronomásia (semelhança de sons e diferença de sentidos) com bomba/pomba e atômica/atônita. Por serem consoantes oclusivas, os sons /p/ e /b/ também sugerem a explosão da bomba.

"Bomba atômica que aterra
Pomba atônita da paz
Pomba tonta, bomba atômica..."


A aliteração tem como efeito, geralmente, o reforço do ritmo que o escritor pretende imprimir à frase. Ela é mais comum na poesia do que na prosa. Vejamos um exemplo na prosa de Guimarães Rosa, em que a aliteração serve para enfatizar o significado central do texto:
"Boi bem bravo, bate baixo,
bota baba, boi berrando..."


Observemos este excerto da composição musical Vai passar, de Chico Buarque e Francis Hime:
"[...]
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
[...]"


Nesses versos, há um recurso expressivo sonoro na passagem "tenebrosas transações". A aliteração da consoante /r/ intercalada que aparece também em pátria, distraída e subtraída, dá relevo à expressão e reforça a sugestão de soturnidade que a reveste.

Nos textos em prosa de caráter não literário, a aliteração torna-se um defeito (vício de linguagem) e deve ser evitada. Chama-se colisão: Vejamos um exemplo:
"Prefeituras param no Paraná para contestar medidas." (Folha de S. Paulo)

ASSONÂNCIA
É a repetição proposital de sons vocálicos idênticos ou semelhantes.
"A linha feminina é carimá
Moqueca, pititinga, caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piraguá." (Gregório de Matos)


Note que, além das aliterações, existem sons vocálicos usados repetidamente: a, i, u.

Note que, além das aliterações, existem sons vocálicos usados repetidamente: a, i, u. que pronunciamos de forma mais aberta.

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa
Soluçando nas trevas entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.


Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.


Ó almas presas mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da dor, no calabouço atroz, funéreo!


Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!


A sensualidade, muito explorada pelo poeta, é substituída por uma ansiedade existencial: o texto exprime um desejo muito forte de transcendência, de superação dos limites impostos ao ser humano - que se impõe por meio da libertação dos sentidos. Indaga-se sobre as "chaves" capazes de abrir as "portas do Mistério", às almas que soluçam nas trevas.

Em todo o poema, o autor procurou destacar a limitação e a rigidez a que a alma humana está condenada. A condição humana é angustiante, na visão revelada por estas palavras: o cárcere das almas é o próprio corpo (condição material, a própria vida na terra). Soluçando entre as trevas, a alma, de sua "prisão" vê as imensidades, mares, estrelas, tardes, natureza, isto é, o mundo em suas manifestações de infinito e plenitude, o mundo em sua totalidade. Percebemos que a primeira estrofe é marcada pela assonância em "mares", "estrelas", "tardes", "natureza".

Na quarta estrofe, marcada pela aliteração (repetição de sons consonantais), presente no verso inicial, o eu lírico procura valores espirituais como solução que possibilite à alma o encontro com a libertação da triste condição material.

Independente da vogal usada, pode-se levar o assunto adiante como se fosse um texto comum. Assim:
"A fala atracada à faca
Ataca a graça abalada da traça
Perene que fere, repele
E ensebe esse blefe de pele
Que incide livre, insigne e triste
No horror dos sonhos nos coros
Num sururu de urubus em cruz"


Com essa sequência alfabética de vogais, o texto pode continuar, enquanto a imaginação e o divertimento persistirem.

MESCLA DE FIGURAS
É muito comum que as figuras apareçam mescladas em um mesmo texto.

O escritor Paulo Lins, em seu romance Cidade de Deus, expressa o avanço da violência no Brasil, nas últimas décadas, com a frase:
"Falha a fala. Fala a bala."

Nas duas frases, podem-se identificar a aliteração, configurada na repetição do fonema /f/; a assonância, pela repetição da vogal a; a paronomásia, pelo trocadilho ou jogo de palavras com apelo sonoro; e a personificação, pela característica humana atribuída à "bala".

Os poetas concretistas tinham certa predileção pelo verbivocovisual (palavra, som e imagem), com a escolha de palavras que concretizassem suas ideias auditivas e visuais. Analisemos, agora, este poema concretista de Ferreira :

O GOL
A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
depois
com o joelho
a dispõe a meia
altura onde
iluminada
a esfera espera
o chute
que
num relâmpago
a dispara

na direção
do nosso

coração

As figuras sonoras são empregadas desde antes da lírica camoniana e contribuem para um texto mais vivo e musical, com os sons e o sentido próprio das palavras, trazendo novos efeitos de sentido

Percebe-se claramente que o poema apresenta aliteração (cadeia de sibilantes /s/: esfera, desce, espaço, veloz, depois, dispõe, esfera, espera, dispara, direção, nosso, coração), assonância (cadeia de vogais e) e paronomásia (apara / a para, esfera / espera). 

"E tia Gabriela sogra grasnadeira grasnou graves grosas de infâmia." (Oswald de Andrade)

Com a repetição de fonemas, o escritor modernista consegue um certo efeito de sentido: a fala de tia Gabriela assemelha-se, ironicamente, a um animal que emite o som alto, tais como corvos e abutres (o pato também grasna). Para conseguir tal efeito, o autor utilizou-se de duas figuras de linguagem: a aliteração e a assonância.

As figuras sonoras sempre foram empregadas por escritores - de Camões a Chico Buarque -, e podem, por conseguinte, contribuir para que o autor torne mais vivo o texto, além de explorar a musicalidade, com os sons e o sentido próprio das palavras, sugerindo um efeito de sentido, despertando sensações e impressões no leitor, visando à melhor compreensão do texto.



*Luiz Roberto Wagner é doutor em Letras pela UNESP de Araraquara-SP e autor do livro Use o português adequado: aspectos gramaticais e análise de textos. 3. ed. São Paulo: All Print. *Djenane Sichieri Wagner Cunha é pós-doutoranda em Língua Portuguesa, pela PUC-São Paulo.


Referência (s):

http://conhecimentopratico.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/42/artigo290502-2.asp

 




 






  


terça-feira, 25 de junho de 2013

DC COMICS X MARVEL COMICS - Dos Quadrinhos às versões Literárias.

DC X MARVEL


Eles são os principais super-heróis dos gibis, conhecidos mundialmente e símbolos icônicos de muitas gerações de aficionados. E pertencem às editoras MARVEL e  DC COMICS, gigantes do segmento.
Não é à toa que Superman, Batman, Homem-aranha, X-Men e vários outros personagens das duas publicadoras monopolizam as versões literárias dos supertipos fantasiados dos quadrinhos.

Uma dessas obras se acomodaria facilmente em lugar de destaque numa hipotética lista definitiva dos melhores livros de ficção científica lançados nas últimas décadas.


MARVEL


A Marvel Comics, apelidada de "Casa das Idéias", é uma editora americana famosa por suas histórias em quadrinhos. Fundada em 1939 por Martin Goodman, inicialmente era chamada de Timely Comics. Em 2009, foi comprada pela Walt Disney. Entre os mais famosos heróis da Marvel, estão o Homem-aranha, o Homem de Ferro, o incrível Hulk, o Capitão América, os X-Men e muitos outros personagens.




DC COMICS


Fundada pelo editor Major Malcolm Wheeler-Nicholson em 1934 como a National Allied Publications, a DC Comics é uma editora de histórias em quadrinhos. É uma unidade da DC Entertainment, parte da Warner Bros.
Entre os personagens mais famosos da DC, estão o Super Homem, o Batman, Mulher Maravilha, Aquaman, Lanterna Verde e Flash, entre muitos outros. É importante também citar o selo Vertigo, pertencente à DC Comics, que publica as histórias consideradas mais sofisticadas e maduras.





DC X MARVEL







Nos Estados Unidos, os contos e romances estrelados por super-heróis dos gibis são uma realidade consolidada: a partir dos anos 70, ela tornou-se uma indústria tão prolífica quanto lucrativa.



segunda-feira, 17 de junho de 2013

EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS

Expressões idiomáticas


A linguagem metafórica constitui uma grande parte de nossa linguagem cotidiana, mas estamos tão acostumados que, às vezes, nem percebemos. As expressões idiomáticas, provérbios, ditos populares e gírias são um bom exemplo disso. Embora esse tipo de frases e expressões tenham significados metafóricos bastante marcados, o distanciamento do sentido próprio torna mais difícil imaginar como essas expressões adquiriram o sentido que têm atualmente. Nem por isso temos dificuldades em usá-las, pois sabemos seus os sentidos fazem parte de nossa memória cultural.

As expressões idiomáticas não se subdividem e constituem-se por conglomerados linguísticos de sentido metafórico fixo. Se o sentido for subdividido em palavras isoladas, a expressão se descaracteriza e seu valor cultural, idiomático, não terá mais sentido. Por exemplo, a expressão "abaixar a cabeça" significa, em sentido metafórico, "submeter-se", "humilhar-se", mas, em sentido denotativo, o sentido é movimentar a cabeça, colocando-a em posição mais baixa. Por isso, dizemos que somente o uso da sentido à linguagem, uma vez que os sentidos podem ser variados, múltiplos.

será que você já conheceu alguém que torcia o nariz? Já comprou um presente que lhe custou os olhos da cara? Já teve de se mostrar com quantos paus se faz uma canoa?
Como você já deve ter percebido, nossa língua é cheia de expressões curiosas, que têm um significado especial e não podem ser traduzidas ao pé da letra. São as chamadas Expressões idiomáticas que todo mundo usa, mas pouca gente sabe de onde vêm. veja o caso de pé-rapado.
No Brasil imperial, o calçado era um símbolo de status. Os nobres, por exemplo, gostavam de exibir-se com largas botas. Os ricos e burgueses usavam sapatos sempre lustrosos. Já os homens do povo andavam descalços, de pé no chão e, por isso eram chamados de pés-rapados. A simbologia era tão forte que, assim que recebia sua alforria, o escravo ia logo comprar um par de sapatos, para ingressar na classe dos pés-calçados.

Já a expressão maria-vai-com-as-outras tem origem  religiosa e está ligada a Nossa Senhora. Isto porque, normalmente, os rosários eram  formados por 150 Ave Marias- todas sempre iguais, em seqüência, separadas apenas por 15 Pais Nossos. Ou seja, a uma Maria, seguiu-se as demais. No passado, quando uma pessoa tinha personalidade fraca, o povo começou a dizer: é uma Maia vai com as outras.....

sábado, 25 de maio de 2013

A Tecnologia e a Educação

A Tecnologia e a Educação

Eduardo O C Chaves

1. A TECNOLOGIA

Há muitas formas de compreender a tecnologia. Para alguns ela é fruto do conhecimento científico especializado. É, porém, preferível compreendê-la da forma mais ampla possível, como qualquer artefato, método ou técnica criado pelo homem para tornar seu trabalho mais leve, sua locomoção e sua comunicação mais fáceis, ou simplesmente sua vida mais satisfatória, agradável e divertida.
Neste sentido amplo, a tecnologia não é algo novo - na verdade, é quase tão velha quanto o próprio homem, visto como homem criador (homo creator).

Nem todas as tecnologias inventadas pelo homem são relevantes para a educação. Algumas apenas estendem sua força física, seus músculos. Outras apenas lhe permitem mover-se pelo espaço mais rapidamente e/ou com menor esforço. Nenhuma dessas tecnologias é altamente relevante para a educação. No entanto, as tecnologias que amplificam os poderes sensoriais do homem, sem dúvida, o são. O mesmo é verdade das tecnologias que estendem a sua capacidade de se comunicar com outras pessoas. Mas, acima de tudo, isto é
verdade das tecnologias, disponíveis hoje, que aumentam os seus poderes mentais: sua capacidade de adquirir, organizar, armazenar, analisar, relacionar, integrar, aplicar e transmitir informação.

As tecnologias que grandemente amplificam os poderes sensoriais do homem (como o telescópio, o microscópio, e todos os outros instrumentos que estendem e ampliam os órgãos dos sentidos humanos) são relativamente recentes e foram eles que, em grande medida, tornaram possível a ciência moderna, experimental.

As tecnologias que estendem a capacidade de comunicação do homem, contudo, existem há muitos séculos. As mais importantes, antes do século dezenove, são a fala tipicamente humana, conceitual (que foi sendo desenvolvida aos poucos, desde tempos imemoriais), a escrita alfabética (criada por volta do século VII AC), e a imprensa, especialmente o livro impresso (inventada por volta de 1450 AD). Os dois últimos séculos viram o aparecimento de várias novas tecnologias de comunicação: o correio moderno, o telégrafo, o telefone, a fotografia, o cinema, o rádio, a televisão e o vídeo. Mais recentemente, como veremos, o computador se tornou um meio de comunicação que engloba todas essas tecnologias de comunicação anteriores.

As tecnologias que aumentam os poderes mentais do homem, e que estão centradas no computador digital, foram desenvolvidas em grande parte depois de 1940 - mas só começaram a ter um grande impacto na sociedade a partir do final da década de 70, com a popularização dos microcomputadores e sua interligação em redes. O computador, além de ser uma tecnologia fundamental para o processamento das informações, vem, como vimos, gradativamente absorvendo as tecnologias de comunicação, à medida que estas se digitalizam.


2. A TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO

Várias expressões são normalmente empregadas para se referir ao uso da tecnologia, no sentido visto, na educação. A expressão mais neutra, "Tecnologia na Educação", parece preferível, visto que nos permite fazer referência à categoria geral que inclui o uso de toda e qualquer forma de tecnologia relevante à educação ("hard" ou "soft", incluindo a fala humana, a escrita, a imprensa,
currículos e programas, giz e quadro-negro, e, mais recentemente, a fotografia, o cinema, o rádio, a televisão, o vídeo e, naturalmente, computadores e a Internet).

Não há porque negar, entretanto, que, hoje em dia, quando a expressão "Tecnologia na Educação" é empregada, dificilmente se pensa em giz e quadro-negro ou mesmo de livros e revistas, muito menos em entidades abstratas como currículos e programas. Normalmente, quando se usa a expressão, a atenção se concentra no computador, que se tornou o ponto de convergência de todas as tecnologias mais recentes (e de algumas antigas). E especialmente depois do enorme sucesso comercial da Internet, computadores raramente são vistos como máquinas isoladas, sendo sempre imaginados em rede - a rede, na realidade, se tornando o computador.

Faz sentido lembrar aos educadores o fato de que a fala humana, a escrita, e, conseqüentemente, aulas, livros e revistas, para não mencionar currículos e programas, são tecnologia, e que, portanto, educadores vêm usando tecnologia na educação há muito tempo. É apenas a sua familiaridade com essas tecnologias que as torna transparentes (i.e., invisíveis) a eles.

"Tecnologia na Educação" é uma expressão preferível a "Tecnologia Educacional", pois esta sugere que há algo intrinsecamente educacional nas tecnologias envolvidas, o que não parece ser o caso. A expressão "Tecnologia na Educação" deixa aberta a possibilidade de que tecnologias que tenham sido inventadas para finalidades totalmente alheias à educação, como é o caso do computador, possam, eventualmente, ficar tão ligadas a ela que se torna difícil imaginar como a educação era possível sem elas. A fala humana (conceitual), a escrita, e, mais recentemente, o livro impresso, também foram inventados, provavelmente, com propósitos menos nobres do que a educação em vista. Hoje, porém, a educação é quase inconcebível sem essas tecnologias. Segundo tudo indica, em poucos anos o computador em rede estará, com toda certeza, na mesma categoria.

A. Educação a Distância, Aprendizagem a Distância e Ensino a Distância
Destas três expressões, a terceira é provavelmente a menos usada. Entretanto, é a mais correta, tecnicamente falando.

Educação e aprendizagem são processos que acontecem dentro do indivíduo - não há como a educação e a aprendizagem possam ocorrer remotamente ou a distância. Educação e aprendizagem ocorrem onde quer que esteja a pessoa - e esta é, num sentido básico e muito importante, o sujeito do processo de 
educação e aprendizagem, nunca o seu objeto. Assim, é difícil imaginar como Educação a Distância e Aprendizagem a Distância possam ser possíveis, a despeito da popularidade dessas expressões.

É perfeitamente possível, contudo, ensinar remotamente ou a distância. Isto acontece o tempo todo. São Paulo ensinou, a distância, os fiéis cristãos que estavam em Roma, Corinto, etc. - usando cartas manuscritas. Autores, distantes no espaço e no tempo, ensinam seus leitores através de livros e artigos impressos. É possível ensinar remotamente ou a distância através de filmes de cinema, da televisão e do vídeo. E hoje podemos ensinar quase qualquer coisa, a qualquer pessoa, em qualquer lugar, através da Internet.

Assim, a expressão "Ensino a Distância" será preferível sempre que houver necessidade de se referir ao ato de ensinar realizado remotamente ou a distância. Que a educação e a aprendizagem possam acontecer em decorrência do ensino é inegável, mas, como já argumentado, isto não nos deve levar a concluir que a educação e a aprendizagem que ocorrem em decorrência do ensino remoto ou a distância também estejam ocorrendo remotamente ou a distância.

B. A Aprendizagem Mediada pela Tecnologia

A despeito de sua popularidade, Ensino a Distância talvez não seja a melhor aplicação da tecnologia na educação hoje. Este lugar possivelmente deve ser reservado ao que pode ser chamado de Aprendizagem Mediada pela Tecnologia. Como mencionado, não há dúvida de que a educação e a aprendizagem podem ocorrer em decorrência do ensino. Mas também não há dúvida de que a educação pode ocorrer através da auto-aprendizagem, i.e., através daquela modalidade de aprendizagem que não está associada a um processo de ensino, mas que ocorre através da interação do ser humano com a natureza, com outras pessoas, e com o mundo cultural. Uma grande proporção da aprendizagem humana acontece desta forma, e, segundo alguns pesquisadores, a aprendizagem, quando ocorre dessa forma, é mais significativa - isto é, acontece mais facilmente, é retida por mais tempo e é transferida de maneira mais natural para outros domínios e contextos - do que a aprendizagem que ocorre em decorrência de processos formais e deliberados de ensino (i.e., através da instrução).

O que é particularmente fascinante nas novas tecnologias disponíveis hoje, em especial na Internet, e, dentro dela, na Web, não é que, com sua ajuda, seja possível ensinar remotamente ou a distância, mas, sim, que elas nos ajudam a criar ambientes ricos em possibilidades de aprendizagem nos quais as pessoas interessadas e motivadas podem aprender quase qualquer coisa sem, necessariamente, se envolver num processo formal e deliberado de ensino. A aprendizagem, neste caso, é mediada apenas pela tecnologia.

Não há dúvida de que atrás da tecnologia há outras pessoas, que preparam os materiais e os disponibilizam através da rede. Quando alguém usa os recursos hoje disponíveis na Internet para aprender de maneiras auto-motivadas e exploratórias, ele usa materiais de diferentes naturezas, preparados e 
disponibilizados em contextos os mais variados, não raro sem qualquer interesse pedagógico, e ele faz isso de maneira totalmente imprevisível, que, portanto, não pode ser planejada, e num ritmo que é totalmente pessoal e regulado apenas pelo desejo de aprender e pela capacidade de assimilar e digerir o que ele encontra pela frente.

Por causa disso não parece viável chamar essa experiência de Ensino a Distância, como se fosse a Internet que ensinasse, ou como se fossem as pessoas por detrás dos materiais que ensinassem.
O que está acontecendo em um contexto como o descrito é Aprendizagem Mediada pela Tecnologia, auto-aprendizagem, isto é, aprendizagem que não é decorrente do ensino.

4. MODALIDADES DE USO DA TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO
À vista do que se disse, é possível concluir que as categorias em que podem ser classificadas as principais maneiras de utilizar a tecnologia na educação são:

Em apoio ao Ensino Presencial
Em apoio ao Ensino a Distância
Em apoio à Auto-aprendizagem

5. TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO E A TRANSFERÊNCIA DE PODER PARA O APRENDENTE

Para que a tecnologia, quando usada na educação, possa ser um instrumento de transferência de poder ("empowerment") para o aprendente, que permita que ele, de posse das potentes ferramentas de aprendizagem que a tecnologia coloca à sua disposição, possa gradativamente se tornar autônomo em sua aprendizagem, é necessário que, junto com a introdução da tecnologia na educação, sejam repensadas as práticas educacionais da escola - de modo a se rever, especialmente, a função dos conteúdos curriculares e o papel do professor no desenvolvimento das competências e habilidades que farão do aprendente alguém capaz de aprender sempre à medida que constrói seus projetos de vida no plano pessoal e social.

Métodos de Pesquisa em Antropologia

OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE.


                        A observação participante segue o princípio de que o antropólogo deve conviver e participar dos ritos e costumes do grupo estudado, ainda que pareça de pouca importância ele deve se ater até aos pormenores. Através da análise criteriosa, da observação, da convivência, seus estudos servirão de alicerce para o conhecimento da sociedade.
                        As bases desta investigação foram instituídas por Bronislaw Manilowski ao romper com a “antropologia de gabinete” e conviver com os ilhéus trobriandeses. Seus estudos estão pautados em um constante diálogo entre a observação participante e as descrições etnográficas.. Sua convivência durante quatro anos com aquela cultura contribuiu enormemente para o desenvolvimento da Escola Funcionalista. Tal convivência foi descrita em seu livro “Os argonautas do Pacífico Ocidental.” Esta obra é considerada como um marco na introdução de um novo modelo epistemológico. Trouxe para antropologia a caracterização de uma cultura segundo observações feitas pelo próprio antropólogo.

                        Antes da observação participante o critério de investigação baseava-se em questionários, relatos de viajantes, documentos que serviam de orientações para se determinar os padrões culturais que se relacionava com aquela sociedade. Com a nova metodologia de estudo, a visão etinocentrista e Eurocentrista foi posta de lado e assim as culturas que eram consideradas primitivas passaram a ganhar contexto mais contemporâneo.
                        Apesar deste novo conceito, desta nova visão, a aculturação dos povos tornou-se ponto de crítica, uma vez que contribuiu para a colonização dos povos.
                        A principal característica deste conceito (observação participante) foi dar valor aos povos à sua cultura (relativismo cultural) e esta observância colaborou para dar atualidade ao não-europeu.


Etnografia.

                        Seja em qualquer escola de pensamento a etnografia constituiu-se como método de pesquisa utilizado por diversos pensadores.
                        Segundo Spradley (1979), etnografia “é a descrição de um sistema de significados culturais de um determinado grupo”. Para Malinowski, etnografia é “a compreensão do ponto de vista do outro, sua relação com a vida, bem como a sua visão do mundo.” Segóvia Herrera define etnografia como a descrição de uma cultura particular que possibilita a descoberta de domínios de conhecimentos, bem como a interpretação de comportamento dos elementos culturais em relação a determinados aspectos.”
                        As definições acima mostram que o modo de colher dados e interpretá-los, os métodos de estudos, variam de acordo com cada escola de pensamento, entretanto, a etnografia não perde a sua importância, pois ela é intrínseca aos estudos antropológicos.
                        Este método de investigação foi introduzido por Manilowski, em seus estudos das tribos da Ilhas Trobriand e se consolidou com a publicação do livro “Os argonautas do Pacífico Ocidental, em 1984. Devemos entender que este método baseia- na descrição detalhada do grupo estudado e no significado do que eles fazem. Portanto, a etnografia assume caráter descritivo da cultura, do modo de vida, dos hábitos do grupo estudado, para mais tarde servir de base conclusiva aos estudo etnológicos.
                        Etnografia não é apenas escrever, mas escrever todos os pormenores, todos os aspectos, ainda que a primeira vista possam parecer sem importância


Hermenêutica.

Uma vez que, a partir do desenvolvimento tecnológico e industrial o distanciamento entre povos, e língua, e nação passou a ser cada vez menor, isto gerou, promovida pelas culturas de massa, por processos migratórios, uma uniformização cultural. A antropologia, que sempre foi considerada a ciência da alteridade, pareceu enfrentar um grande paradigma, pois o seu objeto de estudo (as diferenças culturais) pareceu se perder. Até então todos os estudos antropológicos estavam pautados em modelos descritivos. Somente a partir do século xx um novo conceito, desenvolvido por Hans-Georg Gadamer, denominado hermenêutica, passou a ser utilizado.
                        Na antropologia moderna coexistem quatro correntes antropológicas: a racionalista, a estrutural-funcionalista, a culturalista e a interpretativa. Esta última caracteriza-se pela hermenêutica, onde a busca de se compreender através da interpretação é um fator preponderante. Este conceito de pesquisa parte do pressuposto de que o antropólogo não deve ater-se a conceitos arraigados, mas procurar a partir de sinais, expressões simbólicas, o seu significado. O homem passa a ser visto por sua subjetividade.
                        Geertz foi um dos maiores expoentes deste novo modelo. Definiu cultura como sendo “um conjunto de idéias comuns a determinado grupo, que são trabalhados continuamente de maneira imaginativa, sistemática, explicável, mas não previsível.” (Geertz, 1989) Para este teórico a organização da vida social acontece através de símbolos, como sinais, representações, e para entendê-la e formular princípios a seu respeito, devemos estar sensíveis a esta subjetividade.
Assim, a “hermenêutica representa um esforço para aceitar a diversidade entre as várias maneiras que seres humanos têm de construir suas vidas no processo de vivê-las” (Geertz, 2001a, pp. 37 e 29).